A queda do desemprego, que atingiu uma baixa histórica em Goiás e no Brasil, o crescimento do PIB e a elevação da renda média são sinais positivos de dinamismo da economia brasileira, porém, questões como a inflação e a taxa de juros continuam em alta, pressionando o preço do consumo, principalmente de alimentos, e dificultando as condições de financiamento. Para especialistas, há fatores envolvendo a política monetária e elementos externos da conjuntura global que colaboram para a permanência deste paradoxo no cotidiano das pessoas.
Para o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e economista Everton Rosa, existem quatro principais pontos para compreender esta questão. O primeiro deles é a conjuntura global dos últimos três anos. “Desde a reabertura das economias com a vacinação para a covid-19, bem como com a guerra entre Rússia e Ucrânia, tivemos uma pressão nos preços internacionais, seja por conta da elevação dos custos provocada pelo aumento dos fretes internacionais e do aluguel dos contêineres, seja pela ampliação dos preços de energia, sobretudo combustíveis”, aponta. Ao seu ver, esta questão tem arrefecido desde 2022, mas ainda não passou. “A inflação no mundo todo cedeu, mas itens do núcleo das medidas de inflação continuam pressionando”, continua.
A isso se soma o segundo ponto: adversidades climáticas mais intensas e frequentes, principalmente em 2023 e 2024, levando a problemas de oferta de alguns produtos em diversos mercados, como azeite e café, mais recentemente: “Há algum tempo o azeite de oliva tem mantido seu preço em elevação decorrente de secas na Europa que prejudicam a produção espanhola, que basicamente é a maior do mundo. O que ocorre com o azeite, ocorre com outros produtos no Brasil, seja pela estiagem, seja pelo excesso de chuvas, como é o caso café”.
“O aumento dos preços internacionais ditam o aumento dos preços domésticos de todos os produtos que podem ser vendidos no exterior”
O terceiro fator talvez seja o mais importante pois é de caráter estrutural, isto é, está ligado ao nosso modo de produção e à espinha dorsal da economia goiana e brasileira: “o Brasil é um dos maiores produtores de uma série de produtos primários que consumimos internamente, mas que tem seus preços determinados no exterior. Na falta de uma política de abastecimento doméstico, o aumento do preço do café, da soja, do azeite, da carne, significa maior incentivo à exportação destes produtos em detrimento da venda doméstica”, explica o professor.
Ou seja, se há um aumento da demanda por esses produtos lá fora, o preço sobe, inclusive aqui, mesmo sendo produtos brasileiros: “Temos o encarecimento geral dos custos de produção e transporte. O aumento dos preços internacionais ditam o aumento dos preços domésticos de todos os produtos que podem ser vendidos no exterior”.
Por fim, as eleições americanas e o recém-empossado Donald Trump, mesmo tão longe, também têm um impacto nos preços e nos juros, trazendo incertezas e expectativas para a economia. “Está sendo alimentada uma perspectiva de tarifas sobre comércio e revisão do tratamento dos parceiros internacionais em meio a mais ataque às organizações multilaterais da ONU e blocos econômico como a União Europeia. É difícil separar o que é bravata, do que é de fato medida econômica a ser efetivada, como no caso das tarifas”, resume Rosa.
Isso para o mercado é suficiente para diminuir a confiança no futuro e abre um enorme espaço para especulação. “Sempre que temos incerteza, vivenciamos especulação adicional no preço das commodities, pois por mais que não se saiba quando a situação se normalizará (o que também é objeto de aposta), se sabe que serão necessários combustíveis, commodities industriais e alimentícias. É esperado, portanto, que tenhamos mais essa pressão sobre os preços internacionais, mesmo sem vislumbre de uma atividade econômica global mais robusta”, explica o professor.
No Brasil, temos vivenciado desde o ano passado a desvalorização do real, com maior intensidade no fim do ano. “Este processo é conectado aos demais. O real não desvalorizou sozinho, pois o movimento central era de valorização do dólar frente às demais moedas. Esse movimento advém da perspectiva de maior incerteza global e busca de refúgio na moeda dos EUA, apesar da instabilidade ser gerada lá”, diz o economista.
No fim, todos estes processos chegam ao consumidor pelo supermercado, por meio do preço da carne, do frango, do café. A desvalorização agrava os pontos já destacados, pois encarece os produtos importados finais e intermediários que importamos, encarece nossos compromissos internacionais e estimula ainda mais as exportações, reduzindo mais a disponibilidade de oferta interna, encarecendo os produtos.